Wednesday, July 12, 2006

Sonhei com extraterrestres...

................................................................


Merda... Sonhei com extraterrestres de novo. Detesto sonhar com extraterrestres. É tão melancólico, uma luz tão fria... a gente se sente tão insignificante.

Sei que para a maioria das pessoas, sonhar com extreterrestres não é melancólico, mas apenas bizarro, ou, no mínimo, cômico. Mas para mim não. É estranho e difícil de explicar, mas a atmosfera é só de melancolia, uma espécie de niilismo inerte, paralizador, sem humor e sem paixão.

A impressão é que, diante deles e desta atmosfera, nós, humanos, somos meros animais irracionais, sentimentais, com nossas poesias e esperanças tão estéticas, tão emocionais. Impulsivos e apaixonados. Eles não têm nem pena e nem ódio, apenas nos olham do alto, com ar de superioridade, como máquinas autoproduzidas, seres que já viram de tudo, já vivenciaram tudo que a vida tinha para oferecer e agora já não se admiram mais com nada. A luz é fria, sim, sem humanidade, sem aconchego, sem poesia. Não tem aquela profusão de cores, aquela pirotecnia a la Spielberg. As naves vêm e vão com o maior ar de tédio; eles vêm e vão com ar de tédio e glacial monotonia.

Mas pode ser que eles nos invejem. Talvez tenhamos algum significado no universo; pelo menos é bom para nós acreditarmos que sim. Mas seremos um caso isolado? Ou, como cães no cio, que consideramos isso o Grande Êxtase? O que significa exatamente essa passionalidade, ou melhor, o requintamento da passionalidade? Seria uma diferença apenas de grau? Esse esquema William Shakespeare, meio Romeu & Julieta, “morrer por amor”, ou então a crucificação de Jesus... A cicuta de Sócrates... Seria tudo então uma espécie de suicídio disfarçado, uma inútil renúncia à vida, como alegava Nietzsche? O que significa ser humano, ser apaixonado, ter ideais?

Mas eles nada respondem. Não deixam vestígios. Sua escrita e sua arte (?) parecem abstratas, talvez minimalistas – sim, sua tecnologia é minimalista também; não é como nos filmes, essas naves cheias de rococós eletrônicos. É tudo liso, chapado, uniformizado, limpo, unilateral. Não são naves de brinquedo, computadores engraçadinhos; não tem nada de jogos virtuais – a luz parece ser algo que não se deva desperdiçar. Que horror! Como se a luz, a cor e a “brincadeira” pudessem ser desperdício de algum modo! Parece aquela tese maluca dos neognósticos, de que nunca se deve “desperdiçar” o sêmen... Não há mesmo uma ignóbil semelhança?

Pois bem, eles os extras, usam a luz, mas não é o que entendemos por LUZ, aquela metáfora de esplendor e divindade. A luz deles é uma luz de niilismo, de vazio da alma, de total descrença.

Mas penso que, apesar de tudo isso, deve existir algum resquício, ainda que ínfimo, de luminosidade humana no interior deles. Uma esperança, um desejo de recuperarem um paraíso perdido. Deve ser isso, essa luzinha que não se apagou ainda, ainda instigante e atrativa, que os incita a virem nos procurar, mesmo que eles não saibam muito bem o que estão fazendo, já que às vezes nos exploram e nos assustam, mas esse interesse pela ciência do susto talvez indique uma solução para eles.

Ah, humanidade, não deixe isso acontecer... Se algum cientista criar um mecanismo evolutor ou modificador dos nossos genes, do tipo que só causa o aumento da capacidade cerebral em detrimento do refinamento do emocional, poderemos todos nós, os “parias” e “degenerados” que não aceitamos essa mutação-escravidão, acabarmos nos tornando meras cobaias nas mãos desta ciência inumana, orgulhosamente super-humana, que desconsidera a riqueza da dita “baixeza”, todas as alegrias e êxtases que essa “baixeza” pode proporcionar, toda plenitude das brincadeiras infantis, dos beijos dos amantes, dos espreguiçamentos, das sagradas indolências, da magia instintiva que nos faz sorrir, rir, gargalhar, chorar, cantar, dançar, viver e amar.

Por favor, livrem-nos do Nada, esse tétrico fantasma de sedução espacial; livrem-nos, ó vocês bondosos anjos das alturas!... Quem são vocês? Onde estão?

Aflorem então das alturas do Infinito de nós mesmos, destes céus ricos e estrelados, de encanto e beleza, que reluzem aqui, dentro de nós!





.............................................





Graduação vital


Devagar... nos deixamos atrair pelos primeiros raios de sol.
Devagar... empilhamos o feno nos campos.
Devagar... as nuvens-de-sonho se abrem e expõem seu âmago rosa.
Devagar... as tropas elegem seu novo comandante.
Devagar... as flores se abrem para o seu amado.
Devagar... soltamos a poeira cósmica sobre as peças mortas do museu.
Devagar... sairemos de nosso refúgio para contemplar a melodia
– assovia o novo sinal dos tempos,
sinestesicamente acalmado,
anestesiado das dores agudas
das partidas eternas
e das cidades sem horizonte.



.......................

Monday, November 28, 2005

O encanto perdido

...................................................................


Por Tibério Lobo
(baseado em um argumento de Felipe Félix de Oliveira)

Conto ou roteiro, como quiserem.

Let’s go to the trip.

..............


O septuagenário caminha devagar pela rua de uma pequena cidade.

Capote. Mãos nos bolsos. Vento nos cabelos. Envolvem-no(s) sons de (sub) cultura humana “funcionando”. Talvez uma canção de amor, seja lá o que signifique isso numa hora dessas...

A esquina do prédio de pintura descascada ainda está no mesmo lugar. O aroma do café que sai dali é familiar como qualquer pequeno gozo ou cínica tortura do cotidiano (a mão sai do bolso do capote e enfia-se no da calça, remexe ali por uns instantes). Em algum lugar moedinhas tilintam (em algum lugar).

Edifício amarelo diante da praça-de-jogar-buraco intacto e caricaturalmente imponente. Ele continua ali. Nenhum avião caiu sobre ele antes do noticiário do meio-dia. Ninguém dormia para que isto acontecesse... e o que acontece, de qualquer maneira?

A mesma praça.

“Para quê se alarmar? É só a mesma praça de sempre”.

O mesmo sol de sempre.

“Palavras do Pregador, Eclesiastes. Um velho, antigo sentimento.”

O banco da praça é branco, como dois mais dois são quatro. São brancos em todas as partes do mundo. Em todas as partes do mundo os aposentados os freqüentam - não adianta querer ser holístico num momento destes. É inútil, inútil em todos os mundos.
Feche os olhos. Tente encontrar a si mesmo na escuridão.

“Não, não é escuro o suficiente...”

Visualize a si mesmo no sorriso da criança que passeia segurando o algodão doce. Olhe bem. Ela se demora a comê-lo, justamente para poder admirar aquela cor forte... as variações do rosa justaposto ao sol...

“A ingenuidade envelhece. Meu pai já dizia. Por que duvidar? Eu me lembro bem. Não obtive benefício algum. Há sempre alguém nos enganando enquanto nos deixamos absorver pela distração. Regras de sobrevivência em um mundo capitalista; te fazem duro e garantem o pão nosso.”

Na parte menos iluminada não há um rosa mais intenso, mas um rosa misturado ao preto. Pintado suavemente, bem como havia ensinado a professora na aula de desenho da primeira série.

“Realidade. Concentre-se na realidade. Ao menos pense em algo que faça FUGIR o passado - algo REAL.”

O aroma do café alcança o banco branco. Doces torturas, doces e cínicas. Pequenas como uma gota de cicuta. Ou uma gota de ausência. O que dá no mesmo - como sempre.

“O mundo não sabe que você existe. O que posso oferecer ao mundo? Ele deve ter suas razões - não é uma força produtiva que agora jaz sobre um banco de praça. Recebo invariavelmente o que dou: nada. E as árvores da praça zombam de mim, porque resistem, sob o sol e sob a chuva. Mas...”

Os passarinhos cantam.

“...os pássaros piam e... hoje seria um dia ideal para se nascer. Eu gostaria de nascer hoje. Contanto que algo diferente aconteça; um outro mundo, um outro tempo... Algo novo e que me surpreenda, que me conceda a chance de ser alguém...”

– Você leu o jornal hoje?

O homem voltou-se na direção da voz suave que o interpelou. Um passarinho, empoleirado no encosto do banco, à esquerda, olhava para ele.

– Não, não cheguei a abrir.

– E por quê?

– Porque eu o abro todos os dias e já sei exatamente o que vou ver. Minha vida não mudará em nada por causa disso... e, de qualquer forma, se tiver algo realmente surpreendente, vai passar na TV.

O passarinho dá uma meia risada.

– Ah, eu sei. É; realmente, é bem difícil que a TV mostre algo muito diferente do jornal. Mas eu lhe perguntei porque aconteceu uma coisa muito importante hoje de manhã, e uma coisa importante a nível mundial.

– Hmmm, começou a ficar interessante... E que coisa é essa que pode mudar o mundo?

– Fidel Castro pousou às dez da manhã no aeroporto de Havana.

– Bem, seria extraordinário se desembarcasse no Vaticano... O que tem isso de surpreendente?

– Ele voou. E pousou. E passa bem. O avião não caiu, não enfrentou turbulências no caminho de volta do Brasil. Você sabia que, diariamente, milhares de aviões decolam no mundo todo ao redor do mundo e, de cada 100 destes, 100 pousam sem maiores problemas, em total segurança?

– Para você deve ser fácil falar.

– Diante disso, prefiro imaginar a existência de um grande Espírito Celeste permitindo a alguns voarem sem possuir asas. É, realmente, algo espantoso e digno de nota.

– Eu não precisaria ler o jornal para saber que alguns aviões não caem. É por isso que estou aqui: para encontrar algo que jornais não mostrem.

– Concordo quanto ao jornal, mas os fatos estão acima dos meios.

– Fatos... É, devo admitir que você tem razão. Mas não possui a chave da ciência dos fatos.
Ninguém a possui; nem eu, nem você.

– Parece haver algo que lhe preocupa nos fatos.

– Bem simples: eles nunca tiveram o costume de obedecer ao meu comando.

– Talvez você necessite algum pré-requisito básico.

– Que seria... (aguarda complemento)

– Não, você não entenderia em palavras. Mesmo porque a resposta já está diante de você, esperando apenas por ser decifrada.

O homem aguça o pensamento, não sabendo ao certo se o fixa nos fatos, ou em algum deles, ou na relação entre eles, ou entre alguns deles. Há uma pausa mais ou menos demorada (se o homem demonstrasse maior interesse na conversa, ou uma abertura para o diálogo, seu amigo voador falaria muito mais). E o cenário não muda significativamente, bem como esperado.

– A única lição que pude tirar desta vida é que nada tem valor algum. Tudo é tão vão, tudo tão frágil e falso, como cenários de papelão... As coisas mais contraditórias, o bem e o mal, o prazer e a dor, tudo isso demonstra ter a mesma magnitude. Há quem veja beleza nesta identificação, mas eu nem mesmo sei identificar a beleza. Eu gostaria de estar enganado quanto a isso, mas... não há o que eu possa fazer.

– O que você gostaria de fazer agora?

– Em termos de possível?

– Ahn... sim.

O homem respira profundamente e esboça um sorriso.

– Agora mesmo eu gostaria muito de poder tomar um café... logo ali (aponta o prédio descascado).

– E por que você não vai, então?

O homem expira, em desânimo.

– Me falta dinheiro para isso.

– Bem... no mundo em que eu vivo, o café sempre é de graça.

O homem paralisa, olhos e boca bem abertos.

"Esquizofrenia. Eu sabia que iria acontecer um dia. Já me espreitava desde a adolescência. O santo de Assis e o Dr. Doolittle... Não, ninguém me acreditaria. Eles têm mesmo razão. Não existem santos no mundo dos bancos brancos, das praças-de-jogar-buraco e dos prédios mal-rebocados ou mal-pintados.”

– Você ainda quer café?

Nada de resposta. O homem continua estático.

– Sim, você quer café.

O desejo é tudo.

Sim, você certamente sabe o que é café, o que é um ótimo sinal. Você sabe porque já o provou tantas vezes até reter em si a própria Idéia de café. É por isso que o café está em você, e nada poderá tirá-lo de lá. Você e o café são um só.

“A esquizofrenia tem recursos inesperados, de fato surpreendentes.”

Seu desejo é tudo. O único café existente agora é o seu desejo. A este deu você o nome de café. E não há outro. Você está sentindo o café em cada partícula de sua alma. Está totalmente dominado. O café tomou conta de tudo que você é e está. E sempre será assim, enquanto você quiser que seja.

Você já provou o café inúmeras vezes e certamente voltará a provar. A certeza e o desejo são desta forma um só. Você paira sobre um abismo entre o café já tomado e o a se tomar. Este abismo tem gosto e aroma. Tem também a forma de um prédio meio descascado, de grandes janelas panorâmicas, convidativas para transeuntes. Tem som de agradáveis e breves conversas junto a um balcão, sobre o qual se inclina aquela mulher atenciosa, mas cheia de segredos, que costuma chorar de solidão na noite de seu pequeno apartamento suburbano, envolta pelo seu complexo psicológico de transferência derivado do amor electriano, à espera de um homem compreensivo e maduro que se lhe mostre como uma revigorante surpresa há muito esperada.

– Amigo páss...

Sim, sou sua esquizofrenia, se assim preferir me chamar. Mas não importa. Sei que os fins justificam os meios, assim como os fatos são sempre por ambos soterrados. Deveria você dar tamanho valor ao que jaz sob a terra?

A certeza e o desejo são tudo, já o disse. Assim sendo, para justificar este tudo denominado café, dirija-se ao seu destino fenomênico: ingira o Coffea arabica e cative o individuo de sexo oposto do Homo sapiens sapiens.

Com as moedinhas, OK?


(Numa terça-feira, às 3 horas e 15 minutos da tarde, sobre um banco de praça, um garoto acaba de nascer.)


.....................

(Não-titulado)

...................................................................


Eu havia tentado mais uma vez, juro que tentei ser ou parecer normal, ou, por vezes, convencionalmente excêntrico. Minha vida inteira pode ser resumida – até agora, bênção da idade – num contínuo parecer. O que aconteceria se eu esquecesse tudo isso e mandasse o mundo se danar? Sei lá, mas seria algo bem próximo da morte, esse vazio supremo, esse ser-ou-não-ser-eis-a-questão advindo da ausência de mim mesmo – algo que quase todas as criaturas sentem, vez por outra, mas que nem por isso chegara a se tornar matéria para canções fáceis de se cantar junto.

Agora eu descia a ladeira fingindo passos de bêbado, embora, como fosse do meu feitio, não houvesse bebido demais. Tanto faz, uma vez que minha cabeça latejava de tanta vontade (contida) de chorar; aquele ardimento em algum lugar invisível entre os meus olhos. Eu havia prometido a mim mesmo que dessa vez iria funcionar e caso não funcionasse, havia me predisposto a suportar tudo com a paciência de um mártir. Engraçado... Sempre fui impaciente e, no fim das contas, martírio e suicídio são um pouquinho distintos. Pau que nasce torto, pois é. E eu pensava que dessa vez funcionaria. Ora, se eu mesmo não posso mudar, assim como num milagre, quanto mais não o poderiam as noites! Ficar a noite inteira zanzando de uma ponta a outra do salão fumacento, parado e parecendo um idiota, dançando e sendo chamado de vileiro, vagabundo e daí pra baixo. Tudo para ser aceito, para ser bem-visto. Não, não é o meu lugar, não é a minha diversão, não a minha opção. Mas TU te encontravas ali, e não posso evitar optar por ti, mesmo levando em conta todo o esforço vão, luta, humilhação e vexame que vou deixando para trás quando te persigo, embora atado a ti, your damned white sperm whale, atado por laços imaginários que nem um John Huston conseguiria materializar em película, porque nenhum filme conseguiria transmitir a sensação exata... Não, não quero meu ingresso de volta; quero me afundar em “ti”, ir mais longe ainda. Tu estás na minha dor, mesmo quando te esquivas na multidão. Fui até o fim do mundo atrás dessa isca, tentação, chamariz, imã, norte magnético desorientador que está em ti. Quanto mais te procuro, sinto que estou mais longe de ti; ainda assim teu fantasma sorridente está em algum lugar desta rua quase deserta e desertificadora de almas errantes que se fazem boêmias na busca pelo que foge. Busco e desintegro dia após dia, desenhando retratos teus cada vez mais imprecisos, vendo filmes previsíveis e livros pretensamente vanguardistas e cheios de estilo, só porque os buraquinhos de cupins ou traças nas páginas me despertam compaixão. Imagina se fosse EU quem tivesse escrito... (não lerias)

Mas posso ainda chorar, posso ainda sentir algo e assim me julgar por um instante fora do dilema shakespeareano. Esta implosão avalanche corrosiva, dilacerante de meus sentimentos mal-acostumados de garoto mimado é sinal de que tu existes, e se não existisses seria tudo mais intenso, com a diferença de haver maior pendor ao dilema. O que mais posso fazer?

Subindo e descendo tantas ladeiras vou deixando um rastro de ti no éter infecto da madrugada. Eu juro que tentei. Outra vez. Tentei mostrar que eu podia falar como os outros, rir como os outros e acabei aqui num cafundó, chorando como eu mesmo choro e filosofando para não morrer. Subirei e descerei, descerei quantas vezes me permitirem minhas “forças” na tua Força. Não consegui ser igual aos outros, não consegui ser vanguardistamente diferente. Tudo sempre acaba em lágrimas; já vi este filme tantas e tantas vezes ainda o verei e mesmo assim achei que dessa vez iria dar certo, porque a luz da cultura que absorvi me enganara; luz suja, luz de hospital, luz de peixe-víbora abissal; aquela montanha de cultura abridora de pensamentos e incitadora de revolta estudantil socialista não passava de um emaranhado espinhento de palavras, flor do lácio, pretensões pré-históricas. Filmes velhos; ah, eu os cultuava. Aquela mística, o que parecia científico não passava de linguagem pretensamente científica, sem metodologia e eu também fui fisgado, como milhões de candidatos a espertos e a visionários. Aquele sistema, aquela religião, aquela fuga, tudo desmorona diante da evidência de que as noites continuarão escarnecedoras e nelas eu jamais serei aceito, bem-visto e nem mesmo suportado. Já passei da idade reservada a se questionar sobre identidade, mas não tenho idade, porque a tristeza parece tão infinita e tu agora tão grandemente inacessível e perene em meu pranto perene debaixo dos sorrisos e afazeres cotidianos, diálogos desviados e desfocados...
Ludibriados, ludibriadores, fingidos. Ah, deixo-me então seguir a rua, a lua, tua qualquer coisa, só pra rimar. Freud e Jung estavam enganados. Dormirei e, como sempre, nunca te alcançarei no mundo dos sonhos, nunca concretizando, jamais saciando a fome do meu coração.

Se fingisses tu também, seria outro filme previsível... e é por isso, talvez, que insisto. Atrás da muralha há alguém, um alguém verdadeiro. Atrás de minha muralha pétrea, viril, esconde-se uma cidade pacata e até frágil, mas minha. Se eu vier a morrer, não te culparei. Se eu jamais te alcançar, não poderei responder. Eu quero o TU e quero o EU, mesmo se (ou por isso mesmo) a verdade – como de costume – não parecer muito atraente e a magia se acabar. Algo, porém, deve ser feito. Por favor, te peço, te imploro, até subordinado: não me deixes voltar sozinho novamente... Embora eu saiba que nada evitará que novamente eu me veja percorrendo essa rua longa e misteriosa, soturna, noturna, sinuosa... Pois sei que vou continuar tentando, até me acabar, até tudo se consumar, até romper-se o cordão de prata e nosso amor entrar para a história.

(Lead me to your door!)


.....................

Intervenção

Intervenção
...................................................................


Eles desceram do céu no início da noite. O vento angustiante que assolara as pastagens durante todo o dia bem parecia uma prenúncio da desgraça. As crianças pararam de brincar, mulheres recolhiam suas roupas, cães encolhiam suas orelhas e procuravam um lugar para se esconder. Estranhos estrondos ecoavam entre as montanhas, sobre as nuvens do entardecer tremeluziam cintilâncias matizadas de tons quentes; os cânticos dos pássaros, estes mais pareciam lamentações.

Todavia a noite iniciara iluminada - irregularmente. Estranhas bolas de ectoplasma luminoso sulcavam o firmamento, desciam num vôo rasante e mostravam suas faces aos pobres amedrontados.

Do alto do penhasco que sobressaía da serra à qual o vilarejo agora pedia panteística proteção, os nômades limitavam-se a olhar, não compreendendo aquele espetáculo dantesco. Quando acordaram para a necessidade de fugir, intempestivamente correram em direção aos bosques. Não tiveram chance alguma: eram meros mortais.

Junto à entrada da cidade, estavam elas lá, as tropas assassinas que agora se faziam revelar. Corcéis cibernéticos, a artificial melena fantasmagoricamente branca a contrastar com a negra paisagem de fundo; assentados sobre estes, os impositores, a princípio imóveis em suas armaduras, ao primeiro grito de comando saltaram sobre a comunidade indefesa.

Ao golpe terrível das espadas luminosas, corpos frágeis ou fortes jaziam em seu próprio sangue.

Entre a multidão de desorientados, destacava-se uma jovem mulher, que, carregando seu pequeno filho nos braços, agilmente esquivava-se dos relâmpagos e das explosões, tentando encontrar abrigo entre os escombros. Vendo a inviabilidade de continuar assim procedendo, deteve-se junto à residência ainda intacta de sua irmã. Encontrou-a na varanda, em frenesi.

– Toma meu bebê, guarda-o contigo em tua morada, é possível que eles não mais venham aqui para assolar-te.

– Não te recusarei o pedido, mas, como podes estar certa de haver aqui segurança para teu filho?

– Ora, que interesse teriam os impositores em demorar-se para saquear pobres camponesas? Creio que ainda esta noite... (de súbito, uma explosão estremece a terra ao redor) Oh! Não podemos mais continuar aqui! Preciso encontrar um lugar para meu filho!

Entre as árvores entreviam-se ágeis centelhas: os cavaleiros e suas espadas mortíferas se aproximavam. A jovem mãe, tomando o bebê dos braços da irmã, correu com ele rumo ao centro desolado onde sua casa se situava. Sentia como se corresse por toda a eternidade.

Qual não foi o seu horror, quando, ao chegar junto à entrada da praça principal, deparou-se com a figura do próprio líder da Legião Impositora, ali postado em todo o seu esplendor mefistofélico. De seu capacete, alongado e rubro, despontava um ornamento brilhante, semelhante a uma formação de pequenas pedras; sua armadura reluzia como ouro. Vendo sua nova vítima, descobriu o rosto.

Numa atitude aparentemente insensata, a mulher correu para ele e, sem jamais largar o filho, ajoelhou-se exasperada.

– Vos suplico, em nome de vossa grandeza, que poupeis esta criança e sua pobre mãe!...

– Admites a superioridade da Doutrina Intervencionista e a origem divina da Lei Pentagonal?

– Admito, creio, professo o que quiserdes, mas poupai-nos!

Num só golpe de espada, a mulher cai. Abaixo dela, a terra escurece.

– Fraca de espírito!

Desce do cavalo e ergue a criança. Levando-a consigo, monta. Um esgar se desenha em seu rosto de pedra.

– Não chora, pequenino – a voz cavernosa mesmeriza a criatura, que se cala –, não chora. Ainda tens muito a aprender...


.....................

A máquina

...................................................................


O Monitor entrou, encarou a todos com olhar frio e advertiu:

– Dentro de dez minutos.

Na sala, o silêncio fez-se absoluto; todos os internos apresentando diferentes expressões de apreensão, um temor mudo de quem já adquiriu a noção da inevitabilidade de um destino violento e inexorável. Alguns, na maior discrição que seu instinto de sobrevivência lhes permitia, chegavam mesmo a chorar. 8909, por sua vez, mantinha-se na expectativa costumeira que precedia cada vistoria-íntima-surpresa, o que se tornara uma ação muito comum naquela instituição. Ele, ao contrário da maioria dos colegas, tinha dificuldade de guardar na memória todos os cronogramas de atividades, fossem estas propostas ou impostas. Então, mais uma vez, optara pela submissão (como se houvesse alguma outra opção...). Ficou ajeitando seu uniforme, evitando olhar para as câmeras no alto da sala, na intenção de não demonstrar um medo suspeito.

Os grupos selecionados, atendendo ao chamado sintético dos alto-falantes, levantavam-se e seguiam em fila marcial rumo ao local indicado. Ou seja, a misteriosa sala 28, no último andar. Ninguém sabia dizer a qual setor operacional correspondiam tais dependências. Temiam até o mero comentário. 8909 nem sequer perguntara pelo propósito da corrente atividade, pois temia revelar a própria alienação. Estava completamente confuso, apenas ouvira alguém comentar a respeito de uma certa “tecnologia” que seria incluída entre os métodos pedagógicos, caso uma certa “experiência” atingisse resultados favoráveis a sua aplicação.

Pois bem, chegara a sua vez. Junto com ela, a angústia da incerteza que envolvia a todos. O grupo de cinco rapazes, monitorado pelos vigias eletrônicos, embrenhou-se no organismo gigantesco daquele prédio. Descobriu-se, por fim, que a referida sala 28 era, na verdade, todo um setor. Já no interior dele, foram distribuídas senhas para a apresentação em determinadas salas que a cada um deles estavam reservadas. Logo se verificou que o próprio ato de procurar pelas salas já era em si, uma espécie de teste. Sozinho, perdido entre longos corredores, escadas, guindastes, elevadores e câmeras, 8909 ansiava pela rápida concretização da “experiência”. Contudo, assim que pôde encontrar o caminho, fora novamente tomado pela apreensão, desta vez potencializada. Observou o aspecto de um interno que, já tendo participado da misteriosa atividade supostamente pedagógica, transitava por ali. Estava notoriamente exausto, em deploráveis condições físicas e psicológicas. Parecia estar gemendo ou soluçando...

y3y7y5/xl-88. Porta de ferro, paredes à prova de som... Um botão azul. Acionado, revelou-se uma campainha.

Sem muitas cerimônias, fora conduzido ao interior, após mostrar o talão com a senha. Homens trajados de branco o receberam e solicitaram que se deitasse numa espécie de divã elétrico que se destacava no centro do aposento, ligado a um aparelho imenso e morfologicamente indescritível. Nada de perguntas, Nada de respostas. Apenas ordens claras e implacáveis. Tirou toda a roupa. As mãos e os pés foram atados ao divã, seu corpo ficou entrelaçado em fios e acessórios os mais inimagináveis. Encaixaram-lhe um hediondo capacete.

Silêncio total. O que estariam esperando?

De repente, a dor. Física, mental, interna, externa, absoluta. Física, mental, interna, externa, absoluta, incessante, sobretudo constante. A noção da constância era sem dúvida o pior aspecto. Mais. Mais. Mais. Mais. Ainda.

“Sua vida é devoção, rendição, submissão, aquiescência. Você agora faz parte do organismo universal que enaltece seu sangue, sua raça e sua pátria. Descanse sobre a maré de energia que consome toda consciência própria, lascívia e indolência que lhe corromperam. Reprograme sua viril juventude, transforme-a na força altiva que coroará sua descendência. Esteja apto a ser parte...


(um grito lancinante)


...da MÁQUINA.”


.....................

Identidade

...................................................................


Aquela noite não parecia ser real - normal, tampouco. Caio sentia-se como que em transe, contudo seus sentidos estavam acuradíssimos: tudo a sua volta transpirava significado. Aparentemente inexplicável, ele não se encontrava sob o efeito de nenhuma alteração em seu equilíbrio químico. Já havia há muito superado esse fantasma.

Nem mesmo o apartamento lhe parecia familiar. Uma iridescência azul, efeito do luar ou das luzes da cidade que se insinuavam através das persianas, banhava aquele conforto desorganizado que antes nunca lhe surpreendera. Seu próprio quarto, ao recebê-lo, aparentava estar metafisicamente preparado para o grande acontecimento.

Sentou-se na cama, sem intenção de despir-se tão cedo. Deitou-se de costas, mirou o teto, em seguida a parede à frente. Foi quando algo inusitado chamou-lhe a atenção.

O espelho do roupeiro. Havia algo lá. Algo o chamava, por sinal um chamado inaudível, mas irresistível. Caio levantou-se e, na tentativa de desviar o súbito temor, e ao mesmo tempo disfarçar a traidora curiosidade, passou a observar o seu reflexo. De início, acariciou o rosto devagar, tentou encontrar uma marca diferente. Então, de repente, surpreendeu-se de sua beleza. Sua própria beleza, exuberante e inocente ao mesmo tempo. Uma beleza eterna, imemorial, helênica, renascentista... Nunca havia se sentido tão compulsivamente atraído pela própria figura. Olhos doces, pueris; a cabeleira espessa, negra juba quase atingindo o alinhamento dos ombros, a boca insinuante, perfeita, sedutoramente hesitante...

Teve compulsão de beijar aquele reflexo. Pensou um pouco, porém, quase querendo resistir ao encanto. Num movimento brusco, virou-se de costas para o espelho e, com ímpeto insano, desvencilhou-se de toda a roupa que o cobria. Respirando em golfadas revigoradoras, fechou os olhos. Em seguida, voltou-se para a imagem refletida.

A visão era tão inconcebivelmente bela que Caio chegou a ficar com o espírito atordoado. Afagou lentamente seu torso, como se não se tratasse de seu próprio corpo. Permaneceu vários minutos na mais embriagante contemplação. Não, não queria mais saber de seu corpo, mas do corpo do reflexo. Este parecia adquirir vida própria. Uma vida verdadeira, algo que aquele jovem nunca tivera.

– Já me viste antes, Caio. Antes de tu o seres, eu o fui. A tua única vida encontra-se em mim. E tu acabas de encontrar o caminho para o Mundo das Essências.

– Mas... como posso encontrar um caminho que nem procurei?

– O tempo futuro não passa de uma freqüência a ser sintonizada, o presente lhe é quanticamente paralelo. Uma única virtude, por menor que seja, é um ducto transpessoal que funciona como um elo de ligação entre ambos os estados da relação causa-efeito.

– Então... não seria coincidência?

– Talvez, mas não no sentido de acaso. Tu abriste uma pequena janela para a libertação. Alguém, do outro lado, compadeceu-se de tua pureza. E, assim, fez-se o intercâmbio. Mas... melhor seria se visses por ti mesmo.

Caio aproximou-se mais e olhou-o dentro dos olhos. Tocando-se mutuamente, os amigos se entregaram a um beijo longo e afetuoso. Ao final, ainda fitavam-se num misto de desejo e respeito. A imagem tinha um sorriso enigmático.

– Gostaria de mostrar-te algo. Estás preparado?

Caio não precisava responder. A imagem tomou-o pela mão e o puxou com delicadeza. Mas a travessia não fora assim tão simples. Todos os seus sentimentos viraram pelo avesso; uma fluidez envolveu seu corpo, fluidez sem tempo-espaço. Ele sentiu como se, por algum momento, sua consciência estivesse em todos os pontos do universo. Ouviu o som de mil correntes se rompendo ao mesmo tempo, muralhas a desabar, ondas a quebrar, sangue a correr. Então, reintegrando-se novamente, emergiu de um elemento líquido vivo e perfumado. Extasiado, voltou-se para a fonte de luz da qual era ele nada mais que pragmática extensão. Finalmente, encontrou-se desprovido de qualquer tipo de dúvida.

Pairando sobre a cidade que amanhecia, ondas de rádio e campos magnéticos anunciavam a volta da rotina. Uma energia renovadora envolvia as residências onde alguém despertava. Entretanto, muitos não tinham consciência do que ainda não viam, e continuavam a lamentar sobre os frutos de sua descrença.

Permaneceu atento àquele mundo de irrealidade. Ao início da tarde, observou um rapaz de semblante conhecido sair do prédio em que morava e descer a rua. Acompanhou-o do alto, compadeceu-se e refletiu:

“Há alguém lá embaixo que se esforça para ser igual a mim, mas no dia em que encontrar sua verdadeira identidade, seremos apenas um.”


.....................